PAIXÃO
Senhora, dona dos meus abrigos.
Meus recortes eu os trago,
Pequenos pães feitos de milho.
A marca, na porta, o sangue do cão imolado.
Senhora, dona dos cafezais de papel,
Os ventos sopram nos tubos cilíndricos
Dos órgãos, e levantam as mãos para o teu céu.
Senhora, nos teus olhos reconheci meu destino.
Fui despido pela tua insensatez.
Se a morte fora um bisturi de prata,
Deus! Quisera viesse de uma vez.
Preferível a morte indolor ao teu olhar que mata
Aos poucos e sempre. Senhora,
Os ratos alvoroçados anunciam: "É hora!"
Os sinos dobram e reclamam: "É hora!"
Ouço teus passos no jardim pisando as papoulas.
O amor coagulou o fio de sangue
Na lâmina da guilhotina.
Quantas vidas eu tivesse tantas ofereceria.
Assim, quem sabe um dia, minha poesia a alcance.
Quem sabe ?
|