MAIS UM POEMA DE AMOR
O veneno amarga a minha boca
E tem o nome de mulher.
O cheiro levemente adocicado lembra amêndoas
Podia ser cianeto, mas não é.
O licor letal corroe minha alma.
No rádio toca um bom jazz de Count Baise.
Minha paixão já me curou, hoje me mata.
Eu suo debaixo do cobertor que não me aquece.
O neon que atravessa a parede
Tinge de púrpura as minhas feridas
Eu tenho frio, tenho fome, tenho sede.
Se tivesse um instrumento o tocaria.
Tocaria para ela saber que venceu.
Tocaria para a noite, regurgitando meu sono.
Eu quero que todos saibam quem sou
O que quero, o que penso, quando morro.
O veneno já me entorpece o corpo.
Os apartamentos me devoram a inocência.
Quem sabe se eu gritasse por socorro?
Não! Mil vezes não! (Piedade gera mais violência)
Não pude te amar, não pude.
Mas, louco, gerei tuas crianças;
Tuas crias de olhos tristes e mãos rudes
Que me acariciam as entranhas.
Eu possuía a chave do teu segredo
E estou morrendo por não tê-lo violado.
Agora que morro, quem irá protegê-lo?
Como estará ele assim, imaculado?
|