ELEGIA DESESPERADA NO MEIO DA NOITE
Senhor, a hora é esta,
A noite é densa
E a alma está com frio.
Os cobertores não me aquecem e fico
A tremer quando deveria crer.
As sombras estão em silêncio.
Censuram-me e calam-se para sempre.
A hora é esta. O peito vazio.
A fé me abandonou, senhor.
A mulher dorme ao meu lado.
Seu corpo é quente, o sono leve/pesado.
Não sabe donde venho, para onde vou.
Senhor enquanto a cidade atéia dorme
Meu coração pulsa descompassado e triste.
Enquanto o monstro dorme sossegado
Eu me pergunto por que Ele foi crucificado,
Quantas cruzes já foram erguidas,
Onde estão as pessoas que as ergueram
Para logo em seguida
Nos venderem ícones, indulgências, relicários.
Dái-me forças, senhor; fazei-me forte.
Sê o olho que me assiste.
A noite é esta e a hora é curta.
Quanto menos se espera, vem o Sol e vai-se a Lua.
A luz do dia é a isca
Que atrai teus homens para tua armadilha.
A cidade-dos-homens é um grande engodo.
Quem olha por mim enquanto trabalho nas minas ?
Quem vai olhar pelos meus quando apagarem-me a lamparina ?
Senhor, comunhão suor-cerveja;
Eu beijo as costas da amada com a fé que tenho,
A minha igreja dorme, pacífica, ao meu lado.
E eis-me aqui, vivendo a vida.
O corpo ri, a alma fica.
Lá fora a madrugada, atordoada e nua,
Aqui o hálito doce e quente da mulher que amo.
A noite passa com ligeireza...
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